Flora envolveu-a gentilmente pela cintura e deu um beijo doce em sua bochecha enquanto punha-se de joelhos atrás de Alice, sentada no batente da varanda.
- E como você está hoje?
Alice sorriu, fechando os olhos. Virou-se e, abrindo os olhos praqueles tão claros e tão verdes-água, beijou a amante. Contemplou, meio boba, as sardas e o cabelo avermelhado beijando-a novamente.
- Estou bem. – respondeu em um sorriso – É hoje, o dia marcado, não?
- Sim. Aqui, trouxe-lhe um café.
Alice pegou carinhosa a xícara preta de café preto, exatamente como gostava, e puxou Flora pelo braço fazendo-a sentar-se do seu lado.
- O dia está lindo. Fico feliz de termos marcado para hoje.
- Sim. E peguei uma ótima foto de você nesse casaco de lã vermelho observando esse céu laranja.
Sorriram, juntas, enquanto Alice aninhava-se nos ombros de Flora, que começou a acariciar a barriga dela.
- Você já se decidiu por um nome?
- Pensei em vários… Mas deixemos para quando o vermos, não era o combinado? Temos que ver que cara ele tem.
Com um beijo na testa, Flora levantou-se anunciando que já tinha de arrumar as coisas. A cirurgia estava marcada para as 8 horas, já era tarde.
- Vou ficar mais um pouco aqui, sim?
O céu estava exatamente como o primeiro dia que a conheceu. A diferença é que a conheceu enquanto o sol se punha, e hoje o sol nascia. Hoje, o sol nascia.
- Flora! – disse virando-se um pouco para a porta de entrada.
- Sim? – Respondeu colocando só a o rosto no campo de visão da porta e sorrindo da cena das duas.
- Eu te amo, você sabe?
Incontrolaram-se em sorrisos. Ela largou a bolsa por fazer, voltou à varanda e, abraçando-a, retribuiu as palavras baixinho em seu ouvido. Flora olhou mais um pouco o céu e percebeu, também, estava exatamente igual a quando se conheceram.
- Vamos, que nosso sol hoje nasce.
Chegou em casa e assustou-se: estava tudo igual, tudo do mesmo jeito, tudo de perna para cima. Exatamente como haviam deixado.
Não quis pensar. Pôs-se a organizar tudo freneticamente, colocou na pia as xícaras de café, as tacas de vinho, jogou fora os restos do cinzeiro, os restos de comida, guardou as almofadas jogadas no chão, limpou tudo.
Olhou, um tanto quanto desesperado, para o brilho que restou ao redor.
- Você volta, não volta? Não vai ficar tão magoado que some sem deixar nem garranchos em um bilhetinho? – disse rindo nervosamente enquanto ele batia a porta sem olhar para trás, tão forte que a chave caiu da fechadura.
Ela quem não voltara. E agora? Estariam lá as roupas? Os cds? Os livros? O essencial, ainda estaria? Tinha medo de olhar.
- Oye… ¿Estás ahí?
- Estoy! Encima de ti.
- Te quedas bien.
Quanto tempo fazia, afinal? Não, os cds não estavam lá, muito menos os livros. O guarda-roupa tão vazio quanto como se novo fora. Um vinil deixado, apenas, na vitrola. Parado num blues, no mais triste blues que ouviram juntos.
- ¿Estás ahí? ¿Estás, no? Seguro, estás. …
Sempre que tomo banho de chuva fico com gosto de vida na boca. Parece-me tudo tão claro… Revejo, refaço, recrio. Criativo. Dos vivos ao meu redor, os que seguem me dão muita alegria, os que não seguem eu só desejo carinho. Revivo.
Sabes, há algo muito profundo em observar o mar, em sentar no chão em dia de chuva, em ler olhos alheios, em ter a mão agarrada com força, em rir de besteiras em meio a todo esse vento, em meio a toda essa renovação que é o hoje.
Que venham as idéias novas, sim, que as antigas tendem a ser viciadas. Que venham os sentimentos novos, sim, que os antigos caducam, perdem o sentido. O novo, sempre, novo de novo, belo e imprevisível. Não me digas nunca o que não pode, o que não cabe, que isso só prende. Sejas sempre tudo que puderes. Serei junto.
Porque me interessa viver. Saber, conhecer. Não me interessam prisões de nenhuma forma, seja por ignorância, seja por medo, seja por qualquer besteira. Porque me interessa ouvir, ver, entender, sentir, ser.
Porque me interessa tudo isso em seus sentidos mais profundos. Sem travas, sem amarras. Dá pra entender?
Desatar vários nós.
Encontravam-se sempre quando menos deviam, menos podiam, quando menos era conveniente. Na calada da noite, no meio da mais importante palestra, enquanto os dois estavam o mais possivelmente atarefados. Era nesses momentos que fugiam para os braços um do outro. Invadiam terrenos alheios, viravam noites em praias, em bares e estradas, corriam e sumiam por dias inteiros para depois reaparecerem com a cara mais lavada possível, como se nada houvesse acontecido, entre sorrisos e olhares cúmplices.
Agora, acordava-a depois de dias e dias de folia. Em pleno setembro! Calor de rachar, e eles no meio do mato. Ela, deitada de bruços, dormia sempre bem mais que devia, ficava sempre bem mais tempo acordada, andava mais, queria engolir o mundo, como bem dissera uma grande amiga! Ele era o mundo, o mundo inteiro, e não tinha pressa não. Vivia tudo e vivia muito.
Pois que acordava-a, ela deitada de bruços, cabelos para cima e lençol amarrotado por cima das pernas até os ombros, em puro redemoinho. Chegou perto de seu ouvido, afastou os cabelos rebeldes em um sopro gentil e chamou-a para o sol. Ela murmurou palavras quaisquer que só fariam sentido em seu sonho, esfregou o rosto no travesseiro enquanto percebia que acordava, espreguiçou-se da maneira mais estranha possível e ajeitou-se. Sentou-se no colchão, tão frio quanto o chão de madeira onde ele estava posto, coçou um pouco o couro cabeludo com as duas mãos, ainda em uma tentativa vã de parecer mais desperta e mirou-o. Ele, sentado na ponta do colchão, ria daquela que lhe fazia companhia. Perguntava-se sinceramente que diabos fazia alí e esqueceu-se imediatamente da pergunta enquanto, em um movimento lânguido encostou o seu rosto no dela beijando-a, na bochecha, nos lábios, e nos lábios, e nos lábios…
De repente levantou-se. Acertou os cabelos, espreguiçou-se atleticamente por um segundo ou dois, soltou um pouco mais a blusa e foi-se indo da cabana. Ela ficou paralisada, indignada. Como podia acordá-la e simplesmente ir assim?
- Ora – disse entre risos – se fosse pra ir me deixasse dormindo. O sono estava tão bom… – E jogou-se de volta no colchão em meio a um sorriso.
- Vamos, já é hora. – respondeu um tanto quanto seco, sem virar-se para ela.
- E o porquê de tanta pressa?
- Já é a terceira vez, apenas hoje, que minha mulher telefona. Existe um limite para enganá-la – disse enquanto percebeu que o celular dela agora também tocava. – E veja, sua namorada também a liga. Deve estar começando a preocupar-se.
Fechou imediatamente o sorriso. Você percebe, encontravam-se quando menos deviam, quando menos podiam, quando menos era conveniente. Sumiam por dias e dias inteiros e depois reapareciam com a cara mais lavada possível, como se nada tivesse acontecido, entre sorrisos e olhares cúmplices. Despedir-se-iam com um beijo, com um aperto, com um suspiro demorado. Com olhares maliciosos. Talvez nunca mais se vissem, talvez nunca mais se quisessem. Talvez o tempo fosse maior ou menor que o da última vez. Talvez…
Eram o desastre mais prazeroso e divertido um do outro.
- As pessoas são complicadas e desgastadas demais… Não deveriam querer se juntar em pares e potencializar todo esse desastre ambulante que já são sozinhas.
Ela entrou naquele prédio velho, passou por um senhor que lustrava o chão e foi tomada por um cheiro fortíssimo de madeira misturada ao café que vinha de cada uma das salinhas pequenas, cheias de gente inconformada, como ela. Lembrou-se de quando vira uma quarentona dizer essa frase amargamente, num desses filmes antigos, enquanto tragava o cigarro forte em sua piteira e fechava os olhos em um suspiro. Sentiu seu celular vibrar e, ao ver que era sua mãe, constatou: realmente tal afirmação era verdadeira em qualquer tipo de relacionamento. Duas pessoas desgastadas fazem sempre mais estrago que uma só… Desligou o celular. Será que poderia ficar em paz, hoje?
Sentou-se em seu cubículo. Mil e um papéis de um lado para assinar, outros mil do outro para analisar. E, olha só, lá vem aquele estagiáriozinho que acha saber de tudo para entregar mais um trabalho… Aqueles 20 anos em pleno vigor faziam-na sentir bem pesados os seus 35… Revirou os olhos.
O estagiário, aspirante a um grande arquiteto, trouxe o novo projeto e começou a falar pelos cotovelos. Ela, fingindo escutar, percebeu-se lembrando de Clarice.. Em algum texto ela dizia, “a vida dos sentimentos é extremamente burguesa”… Se tivesse problemas de verdade, estaria tão miserável assim? Franziu o rosto enquanto ele concluía o pensamento e finalmente percebia, ela não ouvira uma palavra sua.
- Meu querido, leve isso para meu assistente, sim? Ele lhe dirá o que fazer. Não, melhor. Ele fará. – disse virando-se para o assistente que parava no momento de mexer em mais papéis, levantava as sobrancelhas e olhava-a um tanto quanto assustado – Luiz, está promovido. Eu me demito!
Agarrou a bolsa que nem havia, na verdade, tirado do ombro e saiu correndo dalí. Esbarrou no senhor que lustrava o chão tão empenhado da saída, não olhou para trás ou para frente e correu.
- É muito melhor quando elas resolvem-se por si só e esquecem dos outros. Afinal, você sempre está e estará só… – dizia a heroína enquanto soltava um olhar devastador ao galã encostado ao bar e jogava a piteira com cigarro aceso e tudo no chão, em um suspiro drástico.
Sorriu. Solidão era o melhor a esperar em troca daquela vida medíocre, sem perspectivas ou vontades! Queria respirar, oras. Não queria importar-se com o salário, com a comida, com os saltos que machucavam seus dedos e agora iam-se estragando pelo andar rápido nas ruas… Ahh, o scarpin! Preto, uma raridade, caríssimo. Estragaria-o mesmo assim? Não, não podia preocupar-se… Buscou dentro da bolsa um cigarro. Não tinha! E estava sem dinheiro, só receberia dalí a dois dias. Mas e agora, demitira-se. Que faria? Não, não há preocupação. Daria um jeito. Daria…?
Acordou e a moça do filme já não fumava mais ou falava amargamente. Estava nos braços do amado e aceitava as consequências de unir seu gênio desastroso ao dele. Ela riu.. Já eram duas da manhã e havia enchido sua cabeça com pensamentos tolos quando precisava tanto descansar…
Acendeu um cigarro que achou na bolsa, jogou a carteira agora vazia perto do seu scarpin novinho, preto, um clássico. Deu um trago ou dois, cansou-se, foi dormir. Tinha o dia cheio pela frente, oh céus!
No meio de todo aquele nada, embaixo de um imenso céu azul, lá estava uma casinha laranja. A léguas e léguas de qualquer outra vida humana. E debaixo de todo aquele céu azul, tão azul e nítido em contraste com algumas nuvens bem brancas, extremamente brancas e rápidas e fofas, lá estava ela. No jardim da casinha laranja, a contemplar as nuvens deitada ao sol. Sol!
Tinha posto o tapete vermelho na grama do jardim para esperar os convidados. Enquanto ainda observava as nuvens, tão bem formadas, fechou os olhos mordendo de leve os lábios.. Já sentia a música! Aquele batuque, aquela cuíca, aquela voz rouca num samba, conhecia todos muito bem.
Chegaram assim mesmo, fazendo festa, como sempre souberam. C0m muito vinho, muita voz, muito fervor. Feito o vento. Tomavam todo o espaço, todo o coração, cheios de poesia e de vida, e nunca ficavam. Cheios de frases como “coração dos outros é terra onde ninguém anda” colhidas nas andanças por aí, entre gente da terra e entre gente simples que só tem a si para dar e dá mais do que os outros merecem. Eram assim, sempre, pertenciam ao mundo. Deixavam e recebiam muito do mundo em tudo. Só ela ficava, lá na casinha laranja, como uma essência para a qual voltar.
E sempre voltavam e sempre iam. – Vamos?
Dançava como quem não sente mais ninguém ao redor. A música? Não importava. As batidas, a melodia, as vozes, pareciam desmembradas do conjunto “música” e ela sentia cada um separada e profundamente, quase em câmera lenta. O agitar-se vinha naturalmente, e as cores que exalavam de sua dança faziam com que, realmente, ela parecesse só e única naquela multidão. As luzes piscavam insistentes, ela só sentia. Fechou os olhos, vibrou, girou, cegou.
A razão esperneava, o sentimento rodava, o corpo estremecia. Sensações chegando chegando, assim de mansinho, fazendo festa onde não deviam. Ensinando a apreciar coisinhas pequenas que às vezes passam tão despercebidas.. Mostrando novos cheiros que não tinham.
Se sorrisse mais, talvez ficasse tão óbvio que a graça escorreria pelos dedos. Como o impossível que a ninguém pertence. Mas era tão óbvio já, aquela obviedade disfarçada, que não sabia mais para onde fugir.
Revivia um sentimento desses profundos, quase como ouvir a mesma música repetidas vezes. Revivia-se no mesmo sentimento, mudava-se nele. Respirava fundo e sentia a forte leveza de um pensamento que enche os pulmões de calma. Tocava com os dedos a sinestesia contraditória que nos rege e a sentia feito veludo…
Era levada por uma pequena brisa que levanta montanhas e deixava-se viver, finalmente, nessa bela poesia… Essa bela poesia!
- Por que você é tão obcecada em partir?
Ela olhou-o por detrás dos ombros, deixando os cabelos mais desorganizados que o normal. Riu, enquanto voltava-se novamente para a mala a fazer. Refletiu por um momento e voltou a colocar os vestidos soltos na bolsa de mão, ainda vazia.
- Por que, hein? E por que você ao menos me responde? Me irrita esse seu jeito…
- Eu não gosto de ir fazendo alarde, mas acabo sempre fazendo né? – disse com uma expressão de compadecimento pela chata situação em que colocou os dois – mas eu achei que, a esse ponto, você já entendia…!
Ela ia de lá para cá, ajeitando pormenores, shampoos, sapatos, tudo na bolsa de mão que levaria para… para onde dessa vez? Nem sabia. Ia sem rumo.
Ele irritava-se. Quanta inconsequência, quanta idiotice para uma pessoa só! Pegou-a pelo braço enquanto andava pelo quarto, mirou-a fundo nos olhos e pediu um “me responde” daqueles que deixam qualquer um sem ação.
Ela suspirou. Odiava quando ele usava todo o seu ser nos olhos daquele jeito… Ele usava todo o seu ser por odiar essa imprevisibilidade extrema, de tão extrema que é forçada, que deve ser imprevisível a qualquer custo, mesmo que não se queira mais…
- Por que a obsessão em partir? – e lágrimas deixaram sua voz embargada – para ver se acho algum motivo para ficar.
Sorriu por entender o quão fútil aquilo pareceria, fechou o zíper da bolsa e saiu sem fechar a porta que ficava para trás, enquanto ele falava, suplicava – então dessa vez não volta, não, que eu cansei…
Sentada no batente da varanda de sua casa, sentia na pele o calor da madeira aquecida pelo sol daquele sertão. Entardecia, mas a varanda guardara o calor de um dia inteiro. Com um graveto desenhava cenários de liberdade no chão arenoso e duro, empoeirado como todo o resto da casa. Fazia uma casa de alvenaria em sonho, junto de flores e um céu, imaginado azul, que não machuca com o sol.
Olhou ao redor constatando as cercas que separavam sua casa da casa dos animais. Levantou-se, ajeitou a alça do vestido que, muito maior do que ela, doado pela irmã mais velha, desajeitava-se constantemente. Fazia muito, muito calor. Seus cabelos ficavam grudados pelo suor no rosto, na nuca e nos ombros. Enxugou com a mão a testa para ver melhor a cena que lhe chamava a atenção: um boi, grande e velho, agonizava com a língua para fora. Onde estariam os outros? Talvez lá longe, era dia de lavoura.
Pulou a cerca, não conseguia abrir com os pequenos braços de criança e foi-se chegando perto daquele que, parecia, precisava urgentemente de um padre. Lembrava muito bem de quando, no ano anterior, a avó morrera e sua irmã teve de ir de mula até a cidade chamar o padre da igrejinha há pouco construída. Ainda bem, já pensou se vovó morresse sem confissão? Nem pensa, menina, nem pensa. E hoje, quem chamaria o padre para aquele pobre animal? Agora, de cócoras em frente ao bicho, observou que ele respirava só de vez em quando, dando aqui e alí umas bufadas fortes que a assustavam.
Quem chamaria o padre? Avistou lá longe a mulinha cansada, único modo de percorrer distâncias longas da família, amarrada por uma corda gasta à uma árvore seca. Suspirou. Só tinha ido à cidade uma vez, e com os pais. Felizmente, tinha sido justamente para a igreja e ela observara atentamente o caminho. “Se vovó não podia morrer sem padre, o pobre boi também não poderia, coitado”, observou compadecida enquanto ele bufava forte novamente fazendo-a cair para trás. Agora já anoitecia. O céu começava a ficar mais escuro quando ela desamarrou a mula, pulou bravamente em cima dela e ordenou, gentilmente, que seguisse. E a mula obedeceu, cansada.
No dia seguinte, apenas, o boi faleceu. Sem padre, entre os gritos desesperados da família a procurar a pequena pelos arredores da casa.
Ele era apenas um menino, seis anos no máximo, e começou a indagar-se constantemente sobre tudo o que sentia. Um dia, por conta de uma feita queda, ele chorava e berrava pelo joelho machucado e sangrento, quando viu uma senhora olhá-lo com olhos de nojo, de desgosto. Parou o choro instantâneamente e voltou triste, cabisbaixo para casa. Pôs-se a observar seus olhos frente ao espelho. Eram tão diferentes dos da senhora! Na verdade, eram diferentes de todos que conhecia.
Inquieto, começou a perguntar-se… “Se meus olhos, que estão fora de tudo o que eu vejo, são diferentes de todos os outros, então quer dizer que todos os outros vêem tudo diferente de mim?” Como sua mãe veria a casa onde moravam? Seria tão diferente dele? Como Sofia, sua melhor amiga, veria aquele grupo com quem os dois conversavam? Seria tão diferente dele?
Entristeceu-se ao perceber, só tinha direito a uma visão, a sua. Nunca saberia como teria sido para Sofia ver o sorvete que um garoto parrudão de outro bairro derrubou de sua mão enquanto passava rápido numa bicicleta. Certamente teria sido bem diferente da dele. Certamente.
Hoje, anos e anos mais tarde, ainda observava o mundo com o mesmo pensamento. Entristecido de só ter direito a ver de perto a sua perspectiva de mundo. Como teria sido dos olhos de sua mãe quando ele saiu de casa? Como teria sido dos olhos do patrão quando ele esqueceu de fazer uma das tarefas mais importantes do mês? Como teria sido dos olhos de Sofia quando ele disse algo assim, sem pensar, e ela magoou-se? E como era agora, posto que ele não havia se desculpado?
Como era o mundo dos olhos daquele garoto alí, teria cinco ou seis anos? Ele que come o pão manchado de asfalto e sente as costelas aparecerem cada vez mais pela sua pele?